O quereres

18 set 2013, por


Expectativas demais podem ser um problema para qualquer relacionamento, a crônica "O quereres" é inspirada na música homônima de Caetano Veloso, na voz de Maria Gadú

As coisas não estavam bem entre Alex e Érica há algum tempo. Com pouco mais de um ano de namoro, o casal vinha se desentendendo semana após semana, até que, após um banho bem quente e demorado, Alex sentou na cama onde a namorada o aguardava e permaneceu por alguns instantes sem dizer uma palavra, inerte, como que estivesse tomando coragem. Até que não aguentou mais.

— Érica, não estou confortável com essa situação.

— Do que você está falando, amor?

— Acho que é um pouco óbvio que não estamos indo muito bem. Já são algumas semanas de desentendimentos constantes. Acho que o melhor que fazemos é cada um tomar o seu caminho.

— Eu não acredito que estou ouvindo isso. — disse Érica com a expressão de quem não esperava por aquela revelação.

— Pois acredite! É melhor nos separarmos enquanto não temos nada ainda mais sério.

— Você arrumou outra? É isso? Pode falar, eu aguento!

— Pare de bobagem, Érica! Nem parece que você esteve presente nesses desentendimentos que passamos.

— Mas aquilo foi bobagem, Alex… A gente se ama! Não é por causa de um ou outro desentendimento que devemos nos separar.

— Não, Érica. Você está errada. Eu te amo e você se ama, resumindo: nós te amamos! Eu e você!

— Que mentira! Você vai dizer que não considera tudo o que eu fiz por nós?

— Olha, vamos encurtar a conversa. Quanto mais alongar será pior. O problema é que você espera muito de mim. Eu não consigo atender suas expectativas. É isso! Eu não sirvo para você!

— Como assim?

— Vou te dar alguns exemplos para ver se você entende. Pode ser?

— Tá bom!

— Lembra quando eu te disse que tinha rinite alérgica? — diante do aceno positivo que Érica, continuou — Érica, preste atenção, te falo que tenho rinite alérgica e o que você faz? Compra um gato! Um gato!

— Mas é que achei que não teria problema, amor. E estávamos meio brigados…

— Claro! Então pode! Como não vi isso? Estávamos meio brigados e isso faz com que você traga um animal que me fará tomar antialérgicos para poder dormir na sua casa. Normal.

Érica tentou argumentar em defesa do bichano, mas Alex continuou a falar:

— Tem mais. Lembra quando você me fez comprar ingressos para um musical? Você sabe que detesto musical. Mesmo assim, comprei. E o que é que você fez?

— Amor, para com isso, vai ficar relembrando tudo? Jogando na minha cara?

— O que é que você fez, Érica?

— Eu…

— Você não foi! E sabe por quê? Porque sua amiga ficou gripada. Só por isso.

— Mas você não entende, sou muito ligada aos amigos! Isso é problema?

— De jeito nenhum, mas você nem sequer me perguntou. Tomou a decisão de dar o bolo e foi embora assim que ela te ligou. Nem desculpa pediu. E o compromisso comigo, aonde é que fica?

— Mas…

Mais uma vez, Alex interrompeu Érica e continuou a puxar o extrato:

— Calma! Nem precisa se justificar. Não vou lembrar todas as vezes que você me deixou na mão ou não teve consideração por mim. Vou apenas colocar a cereja no bolo.

— Tem mais?

— Lógico que tem! Semana passada estávamos falando em casamento. Sobre como faríamos para resolver tudo. Eis que a senhorita teve uma ideia brilhante: devíamos comprar um apartamento.

— E o que tem isso? Todo mundo compra!

— Vou mostrar com laranjas para ver se você entende, fique tranquila, farei com bastante calma. Veja bem, o uso que você fez do verbo “dever”, em seu futuro do pretérito no plural, “deveríamos”, dispensa o uso do pronome “nós”, contudo, ele está lá. “Deveríamos” significa “nós deveríamos”. Entende?

— Ai, lá vem você com essas regras de português! Mas, tudo bem, você está certo, nós deveríamos. Satisfeito?

— Que bom que você entendeu! Agora que sei que o problema não foi gramatical, vamos ao conteúdo. Quando sugeriu a compra do apartamento eu propus que você desse o seu de entrada e eu pagasse as prestações de um bem maior e melhor localizado. E o que aconteceu? Você respondeu que não poderia contribuir.

— Claro, levei anos para comprar meu apartamento sozinha! Não vou vender jamais!

— Eu entendo perfeitamente, Érica. Agora pense por outro ângulo: nós deveríamos comprar um apartamento e, segundo você, o seu atual não seria dado de entrada e você não pagaria as prestações, ficando todo o pagamento dele sob minha responsabilidade. Correto?

— Sim, correto, mas você ganha mais do que eu!

— Claro, claro… E talvez, minha remuneração seja um reflexo de minha competência, sem o uso de sorte ou qualquer outro talento. Essa competência também me permite fazer analogias e raciocínios simples como o que fiz para formar uma opinião a respeito. No seu modelo de casamento, deveríamos comprar um apartamento para ser nosso. Contudo, somente eu deveria pagar por ele e o seu atual continuaria sendo exclusivamente seu. Resumindo: o seu é seu, o meu é nosso! Diante dos fatos, propus um casamento com separação total de bens e você se sentiu ofendida!

— Do jeito que você fala, até parece que eu sou interesseira, Alex!

— Não, Érica. Esse é o ponto do início dessa conversa. Você não é interesseira, você só tem expectativas demais. Nestes casos, você esperou que eu fosse ser o maior otário do mundo! Sinto muito, mas como disse antes, não consigo atender as suas expectativas.

Não foi um ou outro fato isolado que pôs fim ao casal, mas sim o conjunto da obra, a sucessão de insucessos. Nenhum amor morre de ataque cardíaco, nem de algo fulminante, morre de inanição.

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O quereres

Música de Caetano Veloso, nas vozes de Maria Gadú e Caetano Veloso

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

 

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

 

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

 

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

 

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

 

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

 

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock?n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

 

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é em mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim